Projeto Webmuseu
O Projeto Webmuseu – Gestão Inclusiva do Patrimônio Cultural é um projeto de extensão coordenado pela Professora Ana Cecília Rocha Veiga na Escola de Ciência da Informação da UFMG.
O projeto tem por objetivo a extroversão de acervos da universidade e da sua comunidade acadêmica através de repositórios digitais acessíveis na Web. Estes acervos e coleções on-line são objeto, ainda, de pesquisas diversas, como estudos exploratórios para testes com realidade aumentada e inteligência artificial, dentre outros recursos inovadores.
O projeto integra ensino, pesquisa e extensão. Em especial, no caso da Coleção Estampas Culturais, conecta as atividades da pesquisa Gestão de Museus e Acervos na Web: Tecnologias da Informação e Comunicação e da disciplina Gestão de Acervos, ministrada pela coordenadora no Curso de Museologia da UFMG.
Para obter mais informações sobre o Projeto Webmuseu acesse webmuseu.org
Coleção Estampas Culturais
As estampas culturais são fichas de papel cartão, com uma ilustração na frente e explicações no verso. Estes cartões colecionáveis abordam assuntos diversos, tais como arte, viagens, museus, monumentos históricos, arquitetura, literatura, lendas, música, natureza, descobertas científicas, curiosidades, dentre outros. Os cartões colecionáveis tiveram o seu apogeu a partir do final do século XIX, no esteira do desenvolvimento da litografia ou impressão multicolorida.
Segundo o Art & Architecture Thesaurus do Getty, cartões colecionáveis são “cartões emitidos individualmente ou em conjuntos desde o século XIX, principalmente para colecionadores, com uma grande variedade de imagens, como figuras esportivas, estrelas de cinema ou flores. Se os cartões incluírem publicidade, use também ‘cartões publicitários’; se os cartões acompanharem um produto, use também ‘premiums’. Para cartões com anúncios de comerciantes e, às vezes, uma variedade de imagens, produzidos do século XVII ao XIX, use também ‘cartões comerciais’.”
Cartões Liebig
Justus von Liebig (1803-1873) foi um cientista alemão de grande relevância para o campo da química orgânica. Na década de 1840, desenvolveu uma técnica para produção de extrato de carne em pasta ou cubos, enlatada sem necessidade de refrigeração. Este processo prometia concentrar e preservar seus nutrientes e seu sabor.
A Liebig Extract of Meat Company foi uma empresa fundada pelo empreendedor alemão Georg Christian Giebert, que adotou o nome do inventor com sua permissão. Instalou uma grande fábrica em Fray Bentos, no Uruguai, em 1864. Na América do Sul, os reduzidos custos de produção tornavam o empreendimento bem mais lucrativo.
Já a base europeia da companhia ficava na Antuérpia (Bélgica), de onde o produto era distribuído para quase toda a Europa. O sucesso da empresa se deu, em grande parte, ao seu preço acessível e à sua atribuída qualidade, mas também à sua estratégia de marketing de associar conhecimento à nutrição, através dos cartões colecionáveis. Seriam, portanto, alimento para o corpo e para a mente.
Por cerca de um século, a Liebig Company publicou inúmeros cartões colecionáveis, obtidos por meio de cupons de compra. Continham propagandas e receitas que poderiam ser cozinhadas com o próprio extrato de carne. Eram divididos em séries temáticas e foram produzidos em diversos idiomas. Se muitas destas estampas celebravam compositores e artistas europeus, temas bíblicos ou a Antiguidade Greco-Romana, aos poucos é evidente o ampliado interesse nos assuntos arqueológicos, geografias exóticas, viagens e conquistas coloniais. Com frequência, o conteúdo destas estampas expressava valores ocidentais sob lentes vigorosamente eurocêntricas. Conecta-se, assim, a mentalidade imperialista com os interesses dos consumidores, que através dos cartões Liebig se aventuravam planeta afora, em terras africanas e americanas.
Os cartões Liebig eram impressos coloridos com uma técnica denominada cromolitografia. Pedras separadas eram utilizadas como placas de impressão para as múltiplas cores que, quando sobrepostas, resultavam na imagem final. Trata-se de um processo extremamente trabalhoso, algo que só foi otimizado com a invenção das prensas modernas.
Estampas Eucalol
Como bem pontuou Gorberg (2000) em seu maravilhoso catálogo raisonné das Estampas Eucalol, há fortes indícios de que foram inspiradas nos cartões Liebig. Dentre as inúmeras similaridades, as provas mais evidentes parecem ser as séries 19 – A conquista do México e 20 – O descobrimento do caminho marítimo para a Índia, claramente copiadas dos cartões Liebig emitidos em 1897. Mas o que são as Estampas Eucalol?
Em 1917, o imigrante judeu alemão Paulo Stern estabeleceu no Rio de Janeiro uma pequena indústria e comércio de essências. Utilizou-se do nome de sua companheira brasileira para registrar o empreendimento – Correa da Silva & Cia – tendo em vista a crescente animosidade contra os alemães naquele período. Em 1919, seu irmão Ricardo Stern se juntou ao negócio. Antes de erradicar-se no Brasil, Ricardo foi um jornalista correspondente internacional na Europa.
Nascia, portanto, o embrião de uma bem-sucedida fábrica de produtos para toilette, que ganhou o nome fantasia de Perfumaria Myrta. Dentre seus muitos produtos, destacamos aqui a linha baseada no eucalipto, chamada de Eucalol. Em 1926, foram lançados os sabonetes de mesmo nome.
Os sabonetes Eucalol, ao contrário dos convencionais nas cores branca ou rosa, possuíam a cor verde, causando estranhamento inicial no consumidor. Mas como estratégia de marketing, em 1930, a Perfumaria Myrta passou a fornecer três estampas de brinde em cada caixa contendo um número equivalente de sabonetes. Era possível adquirir, ainda, um álbum específico para colecioná-las.
As estampas, publicadas até 1960, foram um sucesso. Infelizmente, na década de 1980, a empresa fechou as portas, mas suas estampas continuam a serem apreciadas até os dias de hoje. Assim como os cartões Liebig na Europa, provavelmente as Estampas Eucalol são os cartões colecionáveis mais famosos da América Latina.
Em termos técnicos, as Estampas Eucalol eram produzidas com processos distintos das Liebig. Foram impressas em várias gráficas, o que explica a variação tonal de seus cartões. Na série Como se faz uma estampa, lemos no verso dos cartões a descrição destas etapas. O desenho original é primeiramente fotografado. A chapa fotográfica é copiada numa chapa de zinco sensibilizada, preparada em seguida com ácidos. Feitas as provas e cópias nas chapas de zinco, de acordo com o porte da máquina, as estampas são impressas uma cor após a outra. Depois, são cortadas e embaladas. Nas ilustrações desta série, há indicação de seis cores.
Em termos de conteúdo, as Estampas Eucalol abordaram uma gama variada de assuntos, dos quais destacamos: viagens e lugares no Brasil e no mundo, lendas do Brasil e da Antiguidade, curiosidades mundiais (patrimônio cultural), natureza (cachoeiras, fauna, flora, animais pré-históricos), povos originários do Brasil, literatura (Dom Quixote, histórias infantis), compositores, brasileiros notórios (Santos Dumont, Oswaldo Cruz), história brasileira, bandeiras, brasões, uniformes, escotismo, esportes, moda, danças, dentre outros.
Os anúncios do sabonete Eucalol propagandeavam o colecionismo como “um novo sport!”. Diziam ainda: “Quer entreter-se? Quer instruir-se? Colecione as instrutivas e interessantes Estampas do sabonete Eucalol.” E o que antes era divertimento intelectual, agora vira nosso objeto de trabalho e estudo.
As Estampas Eucalol entraram para a história das artes gráficas brasileiras, fazem parte das coleções dos nossos museus, habitam as páginas de livros que versam inteiramente sobre elas e viraram até música:
“Montado no meu cavalo, libertava Prometeu, toureava o Minotauro, era amigo de Teseu. Viajava o mundo inteiro nas estampas Eucalol. A sombra de um abacateiro, Ícaro fugia do sol. Subia o monte Olimpo, ribanceira lá do quintal. Mergulhava até Netuno, no oceano abissal. São Jorge ia prá lua, lutar contra o dragão. São Jorge quase morria, mas eu lhe dava a mão. E voltava trazendo a moça com quem ia me casar. Era minha professora, que roubei do Rei Lear.” (Composição de Hélio Contreiras)